29.10.09

O pensador

Publicada por Lara Lisboa |


Quem já viu a escultura de bronze do francês Auguste Rodin pelo menos uma vez questionou: Mas que raios anda o homem a pensar?

O Pensador na verdade era O Poeta e foi feito por Rodin como parte de um grande portal que retratava a Divina Comédia de Dante Alighieri. O homem nú com a mão no queixo e pensando sobre a vida retratava o “pequeno” Dante que diante dos Portões do Inferno, ponderava sobre a sua obra.Mas não é isso que as pessoas imaginam ao olharem para o Pensador mas sim na figura de um homem que no silêncio busca a solução para um problema travando uma luta interna entre o ser, o estar e claro, o pensar.


A verdade é que somos todos um bocado pensadores.Passamos a vida questionando o mundo que nos cerca, vezes por necessidade e outras simplesmente por mera curiosidade.Somos seres sedentos do saber, mesmo os que teimam em não fazer uso disso.


Sócrates, Platão,Maquiavel, Thomas More, Galileu, Montaigne, Hobbes e o Descartes velho de guerra...muitos foram os pensadores famosos, mas nem por isso os únicos.Mais do que conversa filosófica e questões morais, um pensador precisa de uma dúvida ou mesmo de uma linha de raciocínio.O assunto muitas vezes pouco importa pois o verdadeiro pensamento nasce apartir da meditação,da discussão.É ali que as idéias tomam forma e nós encontramos se não a resposta, novas perguntas, novos caminhos ou pelo menos um novo caminho.


Filosofar sobre a vida pode até parecer fácil...o complicado é usar dessa arma que temos e transformar pensamentos e suposições em atos e novos caminhos.Pensar é preciso, fazer bom uso disso, a melhor opção.






11.8.09

O dia dos pais

Publicada por Lara Lisboa |

No segundo domingo de agosto, ao contrário de Portugal onde o dia é sempre o mesmo (19/03), foi o dia dos pais. O meu está em Brasília e por isso esse dia tem sempre um gostinho agridoce.

No dia em que nasci meu pai escreveu um lindo poema. Nele esboçava toda a alegria que marcava a minha chegada, bem como os anseios e expectativas que tinha não só ao meu nascimento, mas ao caminho que traçaria nessa vida.Dizia que independente das escolhas e falhas no caminho, ele lá estaria e que antes mesmo de me ver pela primeira vez já me amava de todo coração.E lá veio a pequena Lara, cabeluda( já nasci com o cabelo caindo no rosto) e pezinhos minúsculos.Branquelinha e com boca de beijinho.E meus pais ficaram radiantes por tudo ter corrido bem.

Meu pai nunca me bateu, ao contrário. Era paparicada e amada e apesar de ser uma peste muitas vezes, acredito ter sido boa filha.Enquanto pequena, via em meu pai o homem perfeito.Era o mais forte, o mais bonito e o mais inteligente.Sabia a resposta de todas as minhas perguntas, até aquelas que não tinham pé nem cabeça, e quando eu me sentia triste ou tinha medo de alguma coisa ele me pegava ao colo e eu via o mundo lá de cima,onde tudo parecia pequeno e fácil de resolver. Quando via meu pai, achava que ele era tão grande que podia tocar o sol com os dedos e tão forte que dentro da piscina me deixava sentar em um dos seus pés enquanto meu irmão Gabriel sentava no outro, para que ele nos balançasse na piscina. Ele era super, o verdadeiro Superman.

Durante a minha adolescência, muitos foram os momentos onde nos desentendemos, onde deixamos que outras pessoas falassem por nós e definissem como deveríamos agir ou reagir. Muitas foram as vezes ficamos de "beiço" um para o outro, mas nada nessa vida deve ser eterno, nem mesmo as pequenas coisas que se transformam em grandes.

O poema que meu pai fez, durante muito tempo esteve com ele. Um dia, na mudança para o escritório novo, eu o encontrei, dentro de uma caixa cheia de papéis e documentos.Li uma, duas e várias vezes.Eu que cheguei a pensar que nunca nos acertaríamos, tive naquele momento uma epifania no seu melhor estado.Deixei de ver meu pai como culpado e parei também de me ver como vítima (erro comum quando passamos por algum problema sem aparente solução) e passei a nos enxergar como sobreviventes.Peguei o poema e guardei comigo.Depois disso, por mais situações complicadas que tenhamos passado, pelos silêncios desnecessários e palavras de carinho que algumas vezes deixaram de ser ditas, passei a ter em conta que muitas vezes reagimos da maneira que sabemos e não da forma que gostaríamos.Se eu sou assim, como poderia exigir algo diferente dele?

Meu pai tem alma de poeta, escreve e muito bem. Tem uma sensibilidade com o mundo que o cerca, que deixaria muita gente que o conhece desde sempre de boca aberta.É o melhor profissional que conheço, um dos melhores do Brasil na sua área, respeitado pelos profissionais da sua área e admirado pelos amigos por seu caráter.

É esportista nato. Se mete em todo tipo de esporte e se dá bem.Já foi tênis, corrida( ainda é maratonista) e agora é o golfe, sua nova paixão (“vai ter que aprender os termos do golfe filha, porque estou mesmo animado com isso” disse ele).É o melhor churrasqueiro do mundo,faz uma carninha mal passada que não tem preço.

Mas se tivesse que escolher uma das qualidades dele que mais me chama a atenção eu diria sem pestanejar que é a capacidade de sonhar e correr atrás que ele tem. Meu pai é um cavaleiro sonhador.Não como os muitos que andam mundo a fora sonhando e vendo a vida passar,encontrando em cada dificuldade um motivo para desistir.Ele nunca foi assim.Nasceu com muito pouco, já teve nada e já teve quase tudo e no meio de todos os altos e baixos da sua vida, jamais desistiu da luta, nunca deixou de acreditar que por pior que fosse o cenário, enquanto ele estivesse disposto a lutar e não duvidasse da sua capacidade, tudo poderia ser diferente.

De todas as coisas que meu pai me ensinou uma das que tenho sempre comigo e faço o possível para não esquecer é de nunca esquecer de me valorizar, de ser capaz de ver o meu potencial e minhas qualidades sem depender do que os outros dizem ou esperam, acreditar que sou importante e especial o suficiente para atingir todas as minhas metas e ainda mais. Eu hoje me arrependo das brigas que tivemos e do tempo que passamos separados, me arrependo das beijocas que não posso dar e do jeito que ele fica quando está bravo, mexendo na cabeleira revolta (que por acaso eu também tenho), sinto falta de conversar sobre música e cinema com ele e de ouví-lo a me chamar de Larinha (foi ele que me deu o apelido). Aos meus amigos e amigas que hoje me conhecem e admiram a minha postura diante da vida, minha maneira de ver as coisas deveriam também agradecer aos meus pais que ao acreditarem sempre em mim, mesmo quando andávamos todos perdidos em busca de respostas,me deram força para amadurecer e hoje além de querer ser mais, estar sempre disposta a fazer a diferença na vida daqueles que atravessam o meu caminho.

Já que não pude estar lá em Brasília com o meu paizão, deixo aqui essa lembrança em forma de mensagem, para que um dia ele possa encontrar dentro de uma caixa ou no seu email e ter a mesma alegria que eu tive ao ler o poema que ele me fez. Melhor do que qualquer presente que se compre é a marca que deixamos na vida daqueles que conhecemos.Meu paizão guerreiro, um feliz dia dos pais para aquele que independente do passar do tempo, continua a ser o meu Superman.
Com amor,

Larinha.




7.8.09

O planeta Bola

Publicada por Lara Lisboa |

Para não dizerem por aí que ando falando só de coisas muito sérias, resolvi falar um pouquinho sobre futebol, porque sou daquelas mulheres que ousam gostar de um bom jogo ou de um mau, porém engraçadinho...

Para quem não vive na Europa, talvez não tenha a verdadeira noção da “Cristianoronaldomania” que por aqui se segue. Desde de suas milionária, transferência ao Real Madrid, as suas já famosas férias anuais e as 2.500 namoradas (só nos últimos dois meses),tudo é motivo de histeria coletiva.Se o Kaká levou 50 mil torcedores para recebê-lo no Estádio Santiago Bernabeu, o Cristiano Ronaldo levou 80 mil...se o fulano teve a transferência mais cara da Europa, ele teve a mais cara de sempre...o que me leva a pensar no peso de ser Ronaldo.
Já repararam que nos últimos anos ser um Ronaldo é quase como ser o Homem-Aranha?Já dizia o tio do Peter Parker que um grande poder exige uma grande responsabilidade e no caso dos Ronaldos não é muito diferente. Num espaço de quinze anos, três foram os que por onde passaram fizeram a diferença.

Para começar algo me leva a crer que os Ronaldos não sejam seres desse planeta. Aliás penso que o nome Ronaldo deveria ser uma definição daqueles que vieram parar aqui na Terra oriundos do planeta Bola.Qual a sua missão?Deixar de boca aberta os pobres mortais. Mas como todo super-herói que se preze possuem fraquezas.E é só então que nos apercebemos que apesar de serem de outro planeta, não são assim tão diferentes.

O primeiro jogava no Cruzeiro e desde cedo tinha jeito de craque (o que parece ser denominador comum nos seres vindos da Bola). Apesar de ter nascido carioca, foi no clube mineiro Cruzeiro onde alcançou a fama.Depois disso, seu destino foi a Itália e lá virou fenômeno.Nessa época ainda era Ronaldinho, um garoto que chegou a seleção brasileira e que apesar de não ter entrado em nenhum jogo da Copa de 1994, voltou pra casa tetracampeão.Parece que o destino do menino era deixar todo mundo de boca aberta, mas como todo herói não era invencível.
Sua Kriptonita?Mulher... E se fosse loira então, era morte certa. Junte a isso algumas lesões sérias que o colocaram de molho, farras (parece que todo jogador em algum momento precisa gostar de farra) e um episódio com um travesti e quase que o Inho que virou fenômeno se afastou de vez da luz.Mas como toda boa história, existe sempre uma reviravolta, o momento de redenção do herói onde ele parece reencontrar seu caminho, nesse caso, no Corinthians.Já levou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil para casa.Sofreu uma lesão, dessa vez na mão que o deixará de molho por pelo menos um mês.Com a fama de Fênix que ganhou através dos anos, alguém dúvida que ele volte?

O Segundo já nasceu ofuscado pelo Fenômeno. Era inho... Ronaldinho e para não confundir, foi apelidado de Gaúcho.Seus poderes nunca foram segredo e desde pequeno já era um fenômeno.Por onde passou despertava surpresa e admiração, mas só perceberam o seu verdadeiro potencial, quando o menino já andava pelo Grêmio.E foi lá onde o inho conseguiu mostrar que não vinha de outro planeta à toa.Não demorou muito até que o levassem para a Europa (algo me diz que é para esses lados que os Ronaldos são mandados para aprimorarem seus poderes). Paris Saint-Germain foi seu primeiro clube por esses lados, mas foi anos depois que o craque encontrou o clube que viria a ser a sua casa por três anos, o Barcelona até mudar para o atual Milan. Sua Kriptonita? O pagode e seu talento.
Ao contrário da lenda que existe de que o filho do meio é o mais problemático, nessa tríade de Ronaldos, o inho é o que menos deu trabalho. Ou seja, tirando o seu gosto musical duvidoso, seu talento que quando vacila é motivo para incendiarem estátuas (copa de 2006 quando a seleção foi eliminada pela França a torcida incendiou uma estátua do craque no Brasil) e jurarem desprezi mortal (geralmente dura até o próximo jogo), seu dentinhos (trademark) e a faixa no cabelo, o que esse ser de outro planeta quer realmente é jogar bola e churrascada.Ah, e se possível um dia virar pagodeiro.Ainda bem que descobriu a bola antes do pagode.

Por fim, mas não menos importante, o Ronaldo, que também é Cristiano. Como os outros dois, talentoso desde pequenino. Foi brilhando entre escolhinhas de futebol até chegar ao Sporting onde não permaneceu muito tempo, sendo levado pouco depois para o Manchester United. O jovem de 18 anos não demorou a mostrar o que valia e na temporada seguinte ganhou o seu primeiro título, a Copa da Inglaterra e posteriormente chegou à final do Euro em 2004. Mas calma que tem mais. Em 2008 conquista sua primeira Liga dos Campeões, além de alguns prêmios pessoais que comprovavam que os que saem do planeta Bola não andam aqui só a brincar. Sua Kriptonita? Ui... se coloco tudo aqui o texto não acaba nunca.Mas o ego é sem dúvida o seu pior inimigo, além do gosto por jóias, bolsas e muita roupa rosa.


Mas calma lá que isso não é um ataque pessoal. O homem é um fenômeno e isso nem se discute, mas apesar de dominar a arte do jogo, ele ainda não consegue lidar bem com o lado Superstar que o acompanha. Basta juntar à mistura 2.500 namoradas, amigos que nunca viu e uma grande boca que muito fala e pouco reflete, que você tem um rapaz que poderia ser um jovem como qualquer outro, mas que acaba por ser Cristiano Ronaldo, sempre na luz da ribalta, sempre com alguém a prestar atenção no que diz e claro, usando isso contra ele.Ainda lembro uma vez quando o moço em tom de “brincadeira” disse: “Sou o primeiro, o segundo e o terceiro melhor jogador do mundo”...no dia seguinte, só se falava nisso. O que quer que diga,vista,compre ou coma, vira notícia de primeira página. Depois da transferência mais cara de sempre, uma Paris Hilton e muitas boazudas, o fortão agora se encontra no Real Madrid para loucura geral da já fanática torcida. Após uma semana exaustiva de preparação para a tão aguardada estréia com direito a promessa de meteoros e chuvas de estrelas, o jogo terminou em empate. A máquina merengue ainda não estava 100% afinada e por isso os fãs perdoaram a falta de gols do craque, o que foi compensado no jogo seguinte para o alívio dos fãs que tanto esperam com a chegada do Ser Ronaldo do momento.

Uma coisa é certa. Se teu nome é Ronaldo, se desde pequeno tem um desejo incontrolável por uma bolinha e não perde um joguinho nem que seja na de botão, muito cuidado!Você pode ter vindo de outro planeta. Outra coisa a ter em consideração é que é bem provável que venha jogar na Europa, mais especificamente no Real Madrid onde a chance é de dois em cada três(Ronaldos). Só é necessário ter em conta quais são os seus pontos fracos, ou nesse caso qual é a tua kriptonita.Entre mulheres, pagodes e fogueira de vaidades há sempre lugar para mais um.A dúvida que paira é de onde virá o próximo fenômeno.É aguardar para descobrir.
Da minha parte, eu gostaria de ver um Ronaldo africano ou oriental, daqueles bem zens que após cada gol faz um movimento ninja e some no meio da fumaça, só para enlouquecer ainda mais o pessoal.É o efeito surpresa, o gosto de espetáculo, o passe que nasce nos pés de um jogador, p drible bem feito que transforma homens como os Ronaldos, Kakas, Ballacks, Drogbas, Zidanes,Robinhos, Maradonas, Pelés e tantos outros em super humanos, em mitos. Pessoas que assinam seu nome na história do futebol com os pés...se fazem lembrar pela magia, aquela que só tem quem vem do planeta Bola.
É por essas e outras que adoro futebol.


7.8.09

Sombra, água fresca e "otras cositas más"

Publicada por Lara Lisboa |

Olá meninos e meninas. Como devem imaginar, ando de férias.
Não são as férias mais tranqüilas do mundo, mas já é algum descanso. Tanto o corpo quanto o espírito já sentiam falta de uma pausa que já era mais do que merecida, daquelas que só percebemos o quanto fazia falta quando finalmente chega.

A surpresa ficou por conta da minha tentativa frustrada em mandar alguns textos por telemóvel. Apesar da aparente facilidade que o blogger oferece, eu não tive facilidade nenhuma e ao entrar aqui reparei que os textos que enviei neste meio tempo não vieram.

Então é assim: uma vez que apesar das férias continuei escrevendo e acreditem que foi até com carinho (pero no mucho), vou colocar aqui do mesmo jeito. Claro que já estão um bocadinho defasados, mas venhamos e convenhamos, eu não prometi a ninguém que seria uma mocinha sempre atualizada.Por isso, perdoem a demora e se não gostarem terei sempre em mente que parte foi culpa do Blogger, parte da minha (pouca) capacidade em enviar coisas pelo telefone e uma parte bem pequenina, quase insignificante...do meu talento,ou no caso, falta dele.

Qual o resumo dessa ópera?Simples: enquanto continuo em minha tentativa de descansar um bocadinho, continuarei escrevendo e dessa vez enviando os posts por aqui mesmo, uma vez que apesar de toda a minha desenvoltura, o telemóvel continua um bichinho de sete cabeças, por pouco tempo espero. Se calhar já ando meio velhaca e já não confio nessas “modernidades” de envio de mensagens pelo telefone... Porque no meu tempo (toda pessoa que gosta de se considerar velhusca manda essa) as mensagens iam pelo correio, eletrônico ou carta mesmo... não tinha essas modernices.É por isso que o mundo não vai pra frente...hehehe.

Beijocas com gostinho de sossego.


20.7.09

O suícida e o computador

Publicada por Lara Lisboa |

Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:

"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo."

Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:

"Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicidio substitui o final. O suicídio é o final."

Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:

"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor."

Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:

"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio."

Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:

"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota."

Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:

"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."

Era isso ? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.

E foi dormir.
Luis Fernando Veríssimo

17.7.09

What I am ou Que raio de previsão é essa?

Publicada por Lara Lisboa |

A quem interessar possa:

Hoje sou mar revolto,cheia de inconstâncias.Tempo­­­ fechado sujeito a tempestades isoladas e maremotos ao final do dia.

Estou sem paciência comigo, com coisas que não consigo resolver. Cansada de dar atenção a quem não se importa e não dar a atenção devida a quem merece. Tenho pena de quem me conhece, porque sei que ando chata, Bad To The Bone.

Eu gostaria de ser mais simples, mais previsível as vezes.Um amigo me disse uma vez que sou muito intensa, que estou sempre a 100% e 100% do tempo.Eu costumava achar graça e exagero, hoje entendo perfeitamente o que ele queria dizer com isso.As vezes nem eu me entendo! Só sei que hoje eu quero.O que eu quero?!

Eu quero mudança!Eu quero tudo do jeito que era!Eu quero viajar!Quero um par de sapatos de salto cor de cereja e quero um golfinho!!Eu quero ir pra lua, quero dominar o mundo!Quero não ficar triste por não ter o que era certo.Quero olhar pra trás e sentir saudade...olha pra frente e ter esperança.Quero tomar banho de chuva,comer chocolate branco e dormir na rede.Quero não sentir raiva e esquecer do que me chateou...quero tudo isso, não quero mais nada!

Hoje estou tempestade..amanhã com sorte volto a ser sol.É cruzar os dedos e esperar pelo melhor.

Beijos a todos.

3.7.09

Elogio ao amor

Publicada por Lara Lisboa |


Sou fanzoca do Miguel Esteves Cardoso.Meu livro de cabeceira no momento é “Os meus problemas”.No livro, ele com muito jeitinho satiriza não só o “ser português” como o “ser humano”.Gosto de quem vê graça na vida apesar de tudo parecer uma grande desgraça.Coincidência boa foi receber um texto do Miguel que hoje compartilho com vocês, sobre a falta que faz o bom e velho amor desmedido.Recebi de uma amiga que tal como eu, acredita que o amor morno de hoje além de não ter graça nenhuma ainda tira a graça de amar e querer ser amado.True love rules.

Elogio ao amor

“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas. Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida,o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”. Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar.

O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende.

O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”




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